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Vale a pena tentar

Hoje é tudo pra já. Se demora muito para conseguirmos alguma coisa, deixamos pra lá. Então a vida passa numa sucessão de sonhos, desistências e consolos imediatos. Onde estão os feitos incríveis? Na vida de quem não se cansa de persistir
Texto: Claudia Carmello, com reportagem de Larissa Soriano // Foto: Daniela Toviansky
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Maria Helena Severiano nasceu numa fazenda de café em Ipaussu, no interior de São Paulo. Ainda bebê se acostumou a uma vida de poucas escolhas. Para poder trabalhar, a mãe deixava-a com os irmãos debaixo de um pé de café o dia todo. Aos 11 anos, após se mudar para Sorocaba (SP), teve de virar empregada doméstica, profissão de todas as mulheres da família. Sua mãe, analfabeta, achava que saber ler já estava bom demais, mas Maria Helena teimava. Lavava a louça da patroa com o livro apoiado na pia. Caminhava mais de uma hora até o trabalho, porque todo o dinheiro ia para o estudo. Hoje, aos 37 anos, ela é formada em duas faculdades, trabalha na área de informática, dá aulas particulares de inglês, há um ano e meio mora sozinha em casa própria e já viajou para a Europa e para as Ilhas Maurício. Enfim, encontrou seu caminho alternativo: é quem sonhou ser.

Aníbal Vercesi, de 63 anos, sempre teve um futuro promissor. Nos anos 70, recém-formado em medicina na Unicamp (Campinas-SP), poderia, como a maioria dos colegas, abrir um consultório, fazer cirurgias, talvez ficar rico. Mas intrigou-se com uma indagação bioquímica: será que a mitocôndria (estrutura das células que produz energia para o corpo) não estaria envolvida na morte celular? Essa pergunta – que aos olhos de um leigo é das menos curiosas – o motivou a virar cientista. Isso numa época em que o Brasil estava na periferia da periferia da pesquisa mundial. Sem possuir os equipamentos de que precisava, várias vezes ele precisou improvisar, como quando construiu uma bomba de pressão com a engrenagem de um despertador. Três décadas depois, coordenador do laboratório de bioenergética mitocondrial da Unicamp, Aníbal é um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros. Suas descobertas já foram citadas em pelo menos 5,5 mil artigos científicos pelo mundo.

O casal Paulo e Helena Coelho – ele, físico e pesquisador da Universidade de São Paulo, ela, professora aposentada – busca uma meta bem menos prática. Escaladores nas horas vagas, em 1991 eles participaram da primeira expedição brasileira ao Everest, a montanha mais alta do mundo. Não chegaram ao alto de seus 8.850 metros, mas viram que era possível. O desafio estava lançado. Até hoje, têm dedicado boa parte da vida a conquistar o topo do planeta. Eles abdicam de certos luxos para juntar o dinheiro para as caras expedições, escolheram não ter filhos e acordam todo dia às 5h30 para conciliar os treinos com o trabalho. Já tentaram oito vezes, e haverá próximas.

As histórias de Maria, Aníbal, Paulo e Helena são daquelas de deixar com a pulga atrás da orelha. Como podem ser tão obstinados? Eles nos espantam por acreditarem num valor que anda bem fora de moda: a persistência.

Geração fast-food

Falar em persistência é quase como lembrar dos conselhos de nossos avós: “Dê duro agora, meu filho, para poder descansar depois. Quem planta colhe”. Nas conversas de bar, nas correntes de e-mail e propagandas de TV, a mensagem é bem outra: a vida é agora, aproveite cada instante, só o que existe é o presente. De repente, parece que ficou difícil escolher uma carreira para toda a vida, permanecer com o mesmo celular ou corte de cabelo por muito tempo, acreditar em casamento que dure. “Vivemos numa sociedade de consumo, que promove um impulso à satisfação de desejos imediatos”, diz a psicóloga Maria Sara Dias. A filósofa Dulce Maria Critelli, professora da PUC de São Paulo, complementa: “Você vê TV com o controle remoto na mão, assiste a vários programas ao mesmo tempo, vai e volta. Não há mais o treino da permanência, da espera”. Quando algo não dá certo, achamos que é impossível, sem perceber que talvez só falte um pouco mais de empenho. “A persistência é a única condição para realizar qualquer coisa”, diz Dulce.

Mas se estivermos apenas aproveitando o hoje e mudando de objetivos mais rapidamente, qual é o problema? Para o economista e filósofo Eduardo Giannetti, em seu livro O Valor do Amanhã, o risco é levar uma vida sem sentido maior. “Isso reduz nossa existência a uma espécie de corrida de obstáculos veloz e tecnicamente sofisticada, mas rumo a lugar nenhum”, diz.

Tento, logo existo

A corrida de Maria Helena precisou ser feita em marcha lenta. Foram seis anos tentando antes de conseguir o primeiro emprego fora das casas dos patrões, como digitadora. Mais os quatro anos da faculdade de letras, antes de criar coragem para enfrentar – e vencer – o disputado vestibular para processamento de dados da Faculdade de Tecnologia de São Paulo, o curso de seus sonhos. “Todos os dias eu tinha medo e me perguntava se daria certo”, conta. Mas a esperança de que as dificuldades presentes trariam um futuro melhor a fazia seguir.

Essa perspectiva temporal é crucial para a capacidade de insistir. E ela só aparece com a idade. A criança vive no presente, não sabe esperar. Nos anos 60, o pesquisador austríaco Walter Mischel chegou a essa conclusão ao conduzir o famoso “experimento do marshmallow”. Crianças eram colocadas em uma sala, sozinhas, com um sino e dois doces inalcançáveis no campo visual. Elas eram informadas que possuíam duas alternativas: se decidissem tocar o sino, o adulto viria à sala trazendo um doce; se esperassem ele vir espontaneamente, ganhariam dois. O tempo máximo de espera era de 20 minutos – coisa que elas não sabiam. Resultado? As crianças de até 4 anos invariavelmente tocavam o sino; entre as que tinham 12 anos, 60% conseguiam esperar até o fim. Disso se concluiu a ligação entre paciência e maturidade.

Desejos são metas que se compram no supermercado. Já a
vontade é a capacidade de realizar algo, de adiar prazeres
imediatos em nome de um projeto maior


Além da noção da passagem do tempo, a capacidade de persistir também está relacionada a valores como o otimismo, a disciplina e a autoconfiança. E essas características ou se trazem do berço, ou nunca se adquirem, não é? A experiência de Maria Helena prova o contrário. “Até os 10 anos eu era péssima aluna”, conta. Até que um dia uma professora começou a chamá-la de burra e dizer que ela não iria para o ginásio, já que precisava tirar A ou B em todas as matérias para não reprovar. “Foi ali que começou a mudança. Eu queria muito passar, então estudei como nunca. E tirei A em todas. Lembro-me bem da sensação de descobrir que eu era, sim, capaz”, recorda.

Nem por isso a próxima etapa seria menos suada. No ensino médio, que ousou fazer em escola particular, era inevitável se comparar aos colegas, com vidas bem mais confortáveis. “Eu mentia que não trabalhava. Não tinha coragem de dizer que era empregada doméstica”, conta. Ainda assim, tirava as melhores notas da sala. “Sonhar em mudar minha realidade me dava ânimo”, explica.

Eis outro trunfo do persistente: uma meta de grande valor. “A persistência está ligada ao seu grau de envolvimento afetivo com um objetivo. Se muito envolvida, a pessoa sente que chegar lá nem implica sacrifício, mas só um atraso da satisfação imediata”, diz Maria Sara Dias. E como identificar essas metas especiais para si? Primeiro é preciso diferenciar desejo de vontade, avalia Dulce Critelli: “Desejo não é nada: é querer fumar um cigarro, comprar uma roupa, tomar um sorvete – metas que se compram no supermercado. Já a vontade é essa capacidade de realizar alguma coisa, de adiar prazeres imediatos em nome de um projeto maior”. Como fez Maria Helena, ao apostar na vida que planejou.

Pé ante pé

O.k., antes de tudo, a meta. Para o cientista Aníbal Vercesi, nada mais natural que seja assim. “O pesquisador que consegue progresso é o que enxerga algo lá na frente e segue passo a passo, com método”, acredita. Como ele, que, depois de 30 anos, é grande figura na descoberta de que as mitocôndrias decidem mesmo quando uma célula deve morrer – o que está relacionado a males como câncer, obesidade, diabetes e Alzheimer. Como não poderia deixar de ser, a conquista foi paulatina. “Em ciência, 80% das hipóteses que você levanta e testa não servem. Se a cada semana você tiver realmente dado um passo à frente na sua pesquisa, já fez muito”, conta.

Trilhar esses passos significa que você dividiu seu objetivo gigante em várias pequenas metas. Elas ajudam a não se perder, a medir quanto se avança e até a controlar a ansiedade. E não só na ciência, mas em todos campos da vida. Para Dulce Critelli, quem não está acostumado a se empenhar em algo tem de começar com um plano de metas mais imediatas. “Se eu quero fazer um regime e continuar comprando chocolate, não vai dar certo. É preciso se reorganizar”, afirma. Seria bom dividir a meta de perder quilos em pequenas tarefas: mudar o que compra, diminuir o número de vezes que assalta a geladeira, arranjar um tempo para a academia.

Mesmo assim, o sucesso ainda não está garantido. “Às vezes você passa meses trabalhando em um experimento e não consegue nenhum progresso. Então você tem de decidir: mudo totalmente a estratégia, mas perseguindo a mesma pergunta, ou começo um novo projeto?”, questiona Aníbal. Esse exame constante de suas chances de chegar ao objetivo é o que diferencia a persistência da teimosia. É importante que seu sonho seja proporcional ao seu tamanho. “Há pessoas que colocam objetivos diante de si muito altos. Se é impossível pular um muro de 5 metros, procure um menor, depois veja se pode aumentá-lo”, diz a psicóloga Maria Sara Dias. “Existe também quem coloque um murinho de 30 centímetros. Daí pensa: ‘ah, já pulei, que sem graça’. Então aumente o seu muro.”

É importante avaliar periodicamente todos os seus recursos materiais e emocionais para atingir o objetivo. E isso só é possível se você se conhecer bem. “Sem uma avaliação crítica da própria força de vontade não dá para planejar o futuro. É assim que você percebe suas fraquezas e carências e planeja onde deve se fortalecer, o que é preciso desenvolver para atingir seu objetivo”, completa. E, se todos os esforços não forem suficientes, não seja obsessivo. Faça como os cientistas: tenha um plano B.

O destino é o caminho

Suponhamos, então, que você tenha cumprido todos os planos, autoavaliações, mudanças de percurso. E chegue à tão sonhada meta. O que vem depois? Maria Helena quer o mestrado. Para Aníbal, cada descoberta no laboratório lhe ocupa com um mundo de novas perguntas. E para quem compra uma casa? Ainda tem a reforma, o jardim. E para quem escalou o Everest? A montanha é a mais alta do mundo, o que haverá depois dela?

Os alpinistas Paulo e Helena Coe­lho – ele, 57 anos, ela, 56 – não têm dificuldade em responder: “A gente vai mudar de montanha. Já escalamos o Aconcágua (a maior da América, na Argentina), o Cho Oyu (a sexta maior do mundo, no Himalaia), o Kilimanjaro (maior da África), o Mont Blanc (maior dos Alpes). A gente volta sempre ao Everest só porque ainda não chegou no cume”, diz Helena. “É isso que nos move, o desafio. No dia em que não tiver mais nenhum desafio na vida, ela não tem mais sentido”, completa Paulo.

O detalhe é que o desafio desse casal tem 8.850 metros de riscos e dificuldades. Primeiro, o dinheiro: só a autorização para subir a montanha custa cerca de 10 mil dólares. Depois, muito treino – musculação, corrida, pedalada, técnicas de escalada. Tudo para enfrentar o frio de até 30 graus negativos, carregar 20 quilos de equipamento e comida nas costas, montar a barraca nos três acampamentos do caminho, descongelar o gelo para beber água, manter-se pendurado numa corda com ventos de até 120 km/h. Ah, e ainda escalar. Fora o treino mental: “A gente também faz ioga, que é importante pra manter o controle emocional”. Além de tudo, ainda tem o imponderável: o tenebroso clima do Himalaia. “Lá, durante um mês você vai ter uns dois dias de tempo ideal para a escalada ao cume. Às vezes, nem isso”, conta Paulo.

Dividir um grande objetivo em pequenas metas ajuda
a não se perder, a medir os avanços e até a controlar
a ansiedade. A regra da ciência vale também para a vida

Não bastassem tantos obstáculos, o casal ainda optou por um estilo de escalada radicalmente esportivo: sem o uso de oxigênio suplementar (equipamento largamente utilizado para reduzir os efeitos da altitude) nem a ajuda de guias, carregadores, cozinheiros ou qualquer equipe. “A escalada tem de ser nossa, não de um cara que contratamos para fazê-la. A mesma coisa o oxigênio: como prática esportiva, ele é um dopping”, argumenta Paulo. Se o ar rarefeito é parte dos obstáculos da montanha, eles não querem fugir dele. “Não se trata só de chegar lá em cima, mas de como chegar, do prazer de fazer o caminho segundo nossos valores”, completa Paulo.

Fincar o pé nessa ideologia é o que ainda afasta Paulo e Helena do topo do mundo. Em uma das tentativas, com tempo muito ruim, era quase impossível chegar lá sem oxigênio. “Aí um amigo americano ofereceu os cilindros. Vimos que era o único jeito. E dissemos não. Se só vai dar com oxigênio, então nosso caminho é pra baixo”, respondeu Paulo. De outra vez, já perto do cume, voltaram para ajudar outro alpinista à beira da morte, atitude rara na montanha. “Quando você está lá em cima e vê que não deu certo outra vez, bate um desânimo, claro. Mas na volta a gente já começa a pensar que, se fizesse isso ou aquilo diferente, daria certo. Aí a vontade volta e começa tudo de novo”, diz Helena.

Melhor arriscar


A sobrevivência de Paulo e Helena não depende de conquistar o topo do Everest  – ao contrário. Tampouco ficarão ricos ou famosos. Simplesmente são apaixonados. Para muita gente, dedicar-se tanto a objetivos sem resultados práticos é loucura. Mas e se ninguém investisse? “Escolha qualquer projeto ousado e inovador na arte ou na ciência, no mundo esportivo ou empresarial: há uma profusão de razões lógicas e objetivas para não embarcar nele”, diz o economista Eduardo Giannetti em outro livro, Autoengano.

Trilhar todo caminho que não seja o mais fácil, conhecido ou seguro – como também fizeram Maria Helena e Aníbal – é como apostar na loteria. Uma história do livro de Giannetti ajuda na comparação: o francês de meia-idade Paul Gauguin resolveu largar um bom emprego no mercado financeiro, a mulher e os filhos pequenos para ir viver sozinho no Taiti sua paixão pela pintura. Quem apostaria no sucesso dessa decisão?

Gauguin acabou se tornando um ícone da arte pós-impressionista. Mas, quando apostou, ainda não era – e ninguém poderia saber o que seria. “O milagre de um gênio não pode ser previsto”, decreta Giannetti. Do que se entende que condenar quem apostou na loteria de seus sonhos e perdeu é o mesmo que condenar Paul a não arriscar tudo para tornar-se Gauguin. A ideia pode não estar na moda. Mas tentar (e isso leva tempo, sabe?) e não conseguir é sempre melhor do que nem tentar.
 

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tou chorando de emocao... incrivel essa materia...
mariana
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