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Questão de escolha

O telefone toca. Uma mulher desesperada diz que o marido está prestes a morrer, com uma dor terrível no peito. Segundos depois, chega o aviso de um acidente com uma van escolar. Imagine que você trabalhe no serviço de emergência e só haja uma ambulância disponível para atender a essas duas chamadas. Você precisa decidir: quem será atendido e quem deverá esperar, sob o risco de morrer? A responsabilidade é só sua, e você terá de lidar com as consequências pelo resto da vida.
Essa delicadíssima situação – e inúmeras outras não menos perturbadoras – foi vivida pelo médico Domingos Guilherme Nápoli, de 58 anos. Durante cinco anos, ele trabalhou atendendo às ligações recebidas pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) da cidade de São Paulo. São até 15 chamadas por minuto. Sem poder ver as vítimas e sem saber se estão respirando com dificuldade, com expressão de dor, sangrando, sem poder examinar a pulsação, a pressão, a temperatura, dependendo apenas do relato do interlocutor, leigo, para avaliar a gravidade da situação, Domingos tinha poucos segundos para decidir como ajudar. Não raro, era preciso escolher uma entre duas vítimas, como no caso acima. Naquela ocasião, ele já havia deslocado uma ambulância para atender o paciente com dores no peito, mas retornou a ligação à esposa dele, avisando-a de que a ajuda demoraria para chegar, pois o acidente com a van era mais grave. A decisão se mostrou acertada: todos foram atendidos a tempo.
Parece uma característica específica de profissões como a de Domingos, mas é algo de que nenhum de nós pode escapar. “Tomamos decisões o tempo todo”, explica o neurologista André Palmini, da PUC-RS. “Nosso cérebro recebe estímulos a todo o instante, e, mesmo sem perceber, reagimos a eles, tomando decisões”, completa. Ao ser estimulado pelo título desta matéria, ou talvez pela foto na página ao lado, você decidiu que o melhor a fazer seria ler a reportagem. E, a cada letra que avança, está reafirmando a escolha. Seja a televisão que você poderia ligar, o doce que está na geladeira, os barulhos que vêm pela janela, um telefonema, seja uma vontade de ir ao banheiro, há milhões de estímulos que poderiam interromper sua leitura, mas você está constantemente optando por ignorá-los. “Decidir não prestar atenção já é uma escolha”, afirma André.
“‘O homem está condenado à liberdade’, dizia Jean-Paul Sartre, expoente do existencialismo, a corrente filosófica mais ligada à escolha”, lembra o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. “Até quando não queremos decidir, estamos optando: escolhemos não escolher. É impossível fugir. Se você existe, toma decisões, e são elas que compõem quem você é.”

Mar de possibilidades
Ao tornar essa característica inata ainda mais relevante, o mundo atual nos apresenta um número recorde de estímulos. Basta lembrar como as coisas eram há algumas décadas para concluirmos que nunca pudemos escolher tanto. Pense nas profissões, por exemplo. Em meados do século XX, quando se falava em faculdade, eram três as opções básicas: medicina, direito ou engenharia. Hoje em dia, são centenas de cursos. Se um jovem tem interesse por informática – uma área de conhecimento nova, por sinal –, pode optar por ciências da computação, engenharia da computação, sistemas de informação, webdesign... O mesmo se observa na vida familiar (em que os arranjos possíveis vão muito além do tradicional mãe, pai e filhos), na religião (a cada novo censo, aumenta a variedade de fés declaradas), no supermercado (onde a mesma marca oferece xampus para dezenas de tipos de cabelo) e em várias outras esferas do cotidiano.
Difícil negar que essa variedade toda é boa. “A liberdade é a grande herança da modernidade”, afirma a psicanalista Diana Corso. Costumamos achar que, se tivermos liberdade, tomaremos as melhores decisões.
Porém, ao mesmo tempo, o amplo leque de opções também dificulta nossa escolha. Como saber se estamos decidindo pelo melhor caminho? Pense no dia a dia de um médico, como Domingos. Se vários pacientes em estado grave chegam ao mesmo tempo no hospital, como escolher quem atender primeiro? “Por volta de 1980 houve um grande acidente de trem, e eu estava de plantão. De repente chegaram carros e mais carros, enchendo o hospital de feridos”, lembra Domingos. Se ele examinasse as pessoas uma a uma, avaliando cuidadosamente os danos que cada uma sofreu, as chances de sobrevivência, a idade, o fato de terem filhos ou não e todos os demais critérios possíveis, para garantir a decisão mais justa, ele estaria, paradoxalmente, escolhendo a pior opção. Pois, sem atendimento imediato, todos morreriam.
Às vezes, o esforço exigido pela decisão diminui o prazer
da escolha. A solução pode ser simplificar o processo,
reduzindo o número de critérios a levar em conta
Para evitar que isso aconteça, os médicos criaram um mecanismo que em poucos segundos os ajudam a tomar uma decisão adequada e eficiente. “É o método ABC”, explica Domingos. “‘A’ são as vias aéreas. É a primeira coisa que verificamos. Se estão obstruídas, é preciso agir urgentemente, pois sem ar ninguém vive. ‘B’ é a respiração. Se mesmo com as vias livres a pessoa não respira, é preciso colocá-la num aparelho. E ‘C’ é a circulação. Se esses sinais estão funcionando, então você investe no paciente. E, para saber até quando insistir, seguimos outros protocolos semelhantes a esse.”
Suficientemente bom
O raciocínio dos médicos, se adaptado a nossa vida, pode ser de grande utilidade. De certa forma, ele resume a tese que Barry Schwartz, professor da Faculdade Swarthomore, nos Estados Unidos, descreve no livro O Paradoxo da Escolha. Ele está convencido de que a grande variedade de opções nem sempre nos faz bem. E cita uma série de experimentos científicos que lhe dão respaldo. Em um deles, dois grupos de pessoas foram convidados a experimentar diversos tipos de chocolate. Para o primeiro, foram apresentadas seis variedades; para o segundo, 30. Cada pessoa deveria eleger o melhor tipo. No fim, os participantes poderiam escolher se seriam pagos com dinheiro ou chocolate. O número dos que escolheram a recompensa em espécie foi quatro vezes maior no grupo que teve menos opções. Os que foram expostos à maior variedade, em geral, perderam o interesse pela guloseima. “Os participantes que se viram diante da menor oferta ficaram mais satisfeitos com o que provaram do que os outros”, analisa Barry.
E por que isso acontece? Porque aqueles que se viram num universo de 30 chocolates idealizaram um doce composto das melhores qualidades de cada um dos tipos. E essa sobremesa tão perfeita quanto inexistente era muito melhor do que qualquer chocolate real e disponível. Frustrados, eles preferiram dinheiro. No outro grupo, como havia menos opções, era mais fácil ter certeza de que se estava fazendo a melhor escolha. “O esforço exigido pela decisão diminui o prazer decorrente do resultado. Um excesso de opções também reduz a atratividade daquilo que as pessoas realmente escolhem, isso porque o fato de pensar nos aspectos atraentes das opções preteridas diminui o prazer proporcionado pela que foi selecionada”, afirma Barry.
Para solucionar esse dilema, voltamos ao método ABC e aos demais protocolos utilizados pelos médicos para decidir a quem atender primeiro e quanto tempo dedicar a cada vítima. Essas decisões podem ser criticadas sob inúmeros critérios. Não seria mais justo atender primeiro os mais novos? Ou, quem sabe, as grávidas? Talvez quem chegasse mais cedo? Mas, como não é possível avaliar todas as variáveis, opta-se por uma solução suficientemente boa: o funcionamento ou não da respiração.
“Aprender a aceitar o suficientemente bom simplifica o processo decisório e aumenta a satisfação”, afirma Barry. E como fazer isso? Limitando as opções que podem nos angustiar. Imagine que você tenha de escolher um plano de saúde. Se sabe que, ao ceder ao impulso de analisar minuciosamente os prós e os contras de cada oferta, você vai beirar a loucura, por que não agir diferente? Que tal definir um teto de mensalidade e dois ou três hospitais que você faz questão que estejam na rede de atendimento e ficar com a primeira opção que se encaixe nesse perfil? “Assim podemos alcançar a paz de espírito no mundo, saturado de opções em que vivemos”, analisa Barry.

De longa data
A grande variedade de opções não só nos angustia na hora de escolher, como também parece nos forçar a mudar de ideia sempre. É como se manter a mesma escolha fosse não aproveitar tudo o que o mundo tem a nos oferecer. “Nossa sociedade faz de toda antiguidade algo obsoleto. Isso vale para um casamento ou para um emprego mantido por décadas, por exemplo. Temos um pensamento do tipo ‘preciso viver mais coisas’, e essa fantasia de que a vida nos deve algo torna difícil manter a mesma escolha por muito tempo”, afirma a psicanalista Diana Corso.
O jornalista Celso Martins, de 59 anos, de Florianópolis (SC), é uma exceção. Sua opção por trabalhar como repórter começou a ser tomada ainda na adolescência, quando fazia o jornalzinho do grêmio estudantil. “Aos 20 anos, logo depois de cumprir o serviço militar, um amigo designer me chamou para trabalhar num jornal de verdade. Não sabia nada de jornalismo, mas aceitei. Fui aprendendo tudo na prática”, conta.
Os três meses em que ficou no primeiro emprego foram suficientes para Celso tomar gosto pela profissão e nela projetar seu futuro. Em 1978, foi convidado a trabalhar no mais importante diário da cidade. “Lá eu passei a me considerar, de fato, um jornalista”, conta. Logo, Celso descobriria uma das principais características da arte de decidir: escolher é perder. Membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB) por dez anos, em 1985 ele percebeu que uma escolha excluía a outra. “A militância atrapalhava a profissão. Não conseguia ter a isenção necessária para escrever as matérias. Então saí do partido”, lembra.
Cada vez mais experiente, Celso tinha tudo para galgar as posições desejadas pela maioria dos repórteres que começaram a carreira com ele. Era esperado que, a certa idade, fosse promovido a editor. Também poderia trocar a redação por uma assessoria de imprensa, em que os salários são maiores. Ou então buscar mais status num grande centro do país. Mas ele não quis nada disso.
“Se eu fizesse minhas escolhas pensando só em dinheiro, não estaria trabalhando com jornalismo, que em geral paga pouco mesmo. Sou repórter por paixão. Até tentei outros cargos de hierarquia mais alta. Fui chefe de reportagem, diretor de redação, mas não gostei. Na primeira oportunidade, voltava para a reportagem. Também recebi convites para trabalhar em São Paulo, mas recusei. Não queria abandonar a história que construí em Florianópolis”, argumenta.
Esse curioso comedimento de Celso remete às reflexões de um antigo pensador da arte de bem escolher. O grego Epicuro, que viveu entre os séculos IV e III a.C., ao questionar-se sobre como tirar o máximo de prazer de um copo-d’água, elaborou os seguintes conselhos: beba só quando tiver sede, e não mais que o necessário. Sem sede por mais poder, mais status ou mais dinheiro, Celso decidiu não beber mais do que o suficiente e manter, com sabedoria, a opção que ainda o faz sentir-se pleno. “Sou repórter porque é o que me realiza”, diz.
Autotransformação
Vera Camerotti, de 47 anos, de São Paulo, também soube manter uma escolha por muito tempo. E para uma menina extrovertida, que namorava e gostava de festas, foi uma opção surpreendente. Aos 23 anos, Vera decidiu tornar-se freira. “Quando entrei na faculdade de arte e educação e fiquei sabendo que era dirigida por religiosas, achei que não me adaptaria. Tive preconceito. Mas conheci pessoas incríveis, que falavam de algo que me entusiasmou muito: viver e crescer no amor. Aí eu vi que valeria a pena dedicar minha vida a isso”, conta.
Os passos até concretizar essa escolha foram lentos e conscientes. Após muita conversa com as freiras da faculdade, Vera decidiu estagiar em uma obra social administrada pelas irmãs. Depois foi um ano de aspirantado, outro de postulado e enfim o noviciado, quando finalmente entrou para o quadro da congregação. Aos 26 anos, ela fez os votos de pobreza, castidade e obediência. Durante todo esse processo, enfrentou a resistência da família. “Minha mãe não entendia minha decisão. Minha vó achava que as irmãs tinham feito uma lavagem cerebral em mim. Feliz ninguém ficou”, conta.
Ao contrário do que sua família poderia pensar, a vida religiosa de Vera não foi nada monótona. Durante quatro anos, ela foi professora e trabalhou com menores abandonados. No início dos anos 1990, passou um ano em Roma, preparando-se para participar de um projeto missionário no Timor-Leste, para onde foi em 1994. “Foi uma experiência muito rica, mas também muito dura, devido à situação política do país”, conta.
De volta ao Brasil, Vera passou a se questionar. “Vi que havia um outro mundo fora da congregação e comecei a perceber que ela não me bastava. Aquele reforço de escolha que eu fazia todos os dias foi enfraquecendo.” Então, pouco a pouco, ela abandonou o hábito. “Questionei-me por anos, sofri com essa inquietação”, afirma. Há dois anos, Vera recebeu autorização do Vaticano para deixar de ser freira e recomeçou sua vida. “Foi uma transformação mais difícil do que quando saí de casa, aos 23 anos”, conta. Hoje, ela tem uma empresa de assessoria administrativa.
Já que mudou de ideia depois de tanto tempo, será que Vera jogou fora metade de sua vida? Ela está certa de que não. “Hoje, sei que a vida religiosa não é para mim. Mas, quando eu tinha 23 anos, era. Foi muito bom enquanto durou, mas chegou um momento em que eu percebi que tinha de fazer outra escolha”. A vivência que Vera adquiriu foi o que lhe deu clareza para decidir. Ela soube se valer de uma das melhores coisas que a vida nos oferece: a capacidade de ver nossa trajetória se transformando de acordo com as escolhas que fazemos. “Não sei o que o futuro me reserva. Essa decisão ainda é muito recente. Talvez a vida seja mais insegura, mas o que importa é que estou mais serena. A vida foi acontecendo, eu fui optando e vivi cada consequência do que escolhi.”


















































