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O carro virou mula

Os últimos 13 dias haviam sido de sol escaldante em São Paulo. O ar estava seco, carregado de fuligem. Olhando pela janela de sua sala, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o professor Paulo Saldiva observa o trânsito congestionado. Dezenas de automóveis soltando ainda mais fumaça no ar da metrópole, praticamente sem sair do lugar. “Precisamos mudar. Caso contrário, vamos continuar prisioneiros de nossa inércia”, ele sentencia.
Há 20 anos, Paulo estuda as consequências da poluição do ar em nossa vida. Ele sabe números precisos sobre o tema. Mas não é um homem só de teoria. Prova disso é que, faça chuva ou faça sol, vai ao trabalho e volta para casa diariamente a bordo de sua bicicleta. Em vez do falatório ambiental utópico, ele investe em pragmáticas pesquisas que contabilizam o prejuízo causado pelos gases tóxicos. Recentemente, instalou medidores de poluição nas mochilas escolares de crianças, por exemplo. Pondo tudo na ponta do lápis, torna-se possível exigir que a conta seja paga por quem lucra em cima dela.
Acaba a entrevista, e os carros ainda estão parados lá fora. Diante da cena, é impossível não se perguntar: até quando vamos ficar buzinando sem sair do lugar?
Qual é a primeira coisa que precisa ser mudada, a fim de resolver o problema da poluição nas cidades?
Paulo – A nossa visão diante da ideia de se locomover. O transporte individual incorporou valores que vão além da sua principal função. Ter um carro hoje é estar protegido do resto da sociedade. Ele se transformou em mais uma fortaleza, como é um condomínio fechado. Para que as pessoas se locomovam bem numa cidade, é preciso aceitar um pouco mais de integração. Seja dividindo um mesmo ônibus, seja caminhando na calçada ao lado de outros.
Que preço pagamos por continuar insistindo nesse modelo individual?
Paulo – Somando internações, mortes e a redução de expectativa de vida, uma cidade como São Paulo perde 1,5 bilhão de dólares por ano. E o resultado não inclui o prejuízo de ficar parado no trânsito. Uma criança exposta à poluição tem quatro vezes mais probabilidade de adquirir uma doença respiratória. A Organização Mundial de Saúde mostra que 4 mil pessoas morrem por ano por causa da poluição em São Paulo. Para efeito de comparação: mil pessoas morrem de aids no mesmo período. Mesmo assim, relutamos em tratar a poluição como um caso de saúde pública.
O que podemos fazer para poluir menos?
Paulo – Economizar eletricidade, andar mais a pé, comer menos carne vermelha são hábitos eficientes que qualquer um pode adotar. Mas creio que a grande questão é precisar as perdas com a poluição. Dessa maneira, conseguiremos taxar quem contribui para piorar o ar. Hoje, você retira na Arábia Saudita um barril de petróleo gastando no máximo 5 dólares. E vende depois por 70. Um negócio extremamente lucrativo. Os setores petrolífero e automobilístico deveriam ser taxados pelo prejuízo que seus produtos irão causar nas cidades. Se não, é como uma empresa farmacêutica lançar um remédio novo e não ter nenhuma responsabilidade sobre seus efeitos colaterais.
Mas isso não deixaria o negócio pouco rentável para as empresas??
Paulo – Não. Faria com que elas investissem em tecnologias menos nocivas. Dias atrás, estava conversando com um pessoal de uma fábrica de cerveja. Eles me contaram que antigamente usavam 10 litros de água para produzir 1 litro da bebida. Depois que o governo passou a cobrar mais pela água, eles passaram a aproveitar a que vinha da chuva. Hoje, produzem a mesma quantidade de cerveja com apenas 2,8 litros de água.
Você vem ao trabalho todo dia de bicicleta. Sua intenção ao fazer isso é não ficar só na teoria e dar o exemplo?
Paulo – De certa forma, sim. Acredito que faltam pessoas capazes de mobilizar os outros para a causa ambiental. Líderes que não dão o exemplo são líderes fracos. A própria universidade em que trabalho é assim... Sabemos muito sobre os efeitos maléficos da poluição, mas não temos um campus ecologicamente sustentável.
E dá para andar de bicicleta em uma cidade grande brasileira?
Paulo – Só com muita cautela e ciente de que você não é bem-vindo. Tenho carro, mas o uso somente para viajar. Para o resto, vou de bicicleta. Consigo entender que o morador longe do centro da cidade compre um carro. Mas não acho que seja extremamente necessário para quem vive mais próximo da região central. É muito mais vantajoso andar de ônibus, metrô ou mesmo caminhar. Há um dado curioso sobre isso: os bandeirantes que vinham no lombo de mulas de Santo Amaro [distrito da Zona Sul paulistana] até o centro de São Paulo chegavam mais rápido do que nós, hoje, com os carros. Não há muita lógica em utilizar um veículo com tecnologia do século 21 numa cidade que o faz ter capacidade real de mobilidade menor do que um meio de transporte do século 17.
Falamos de tantos dados negativos. Isso não o desanima?
Paulo – De jeito nenhum. Sou otimista. Quando menor, eu achava que o futuro seria como no desenho Os Jetsons: um mundo feito com uma engenharia do bem. Infelizmente, o roteiro mudou. E hoje vivemos num filme estilo Blade Runner. Mas grandes mudanças no mundo acontecem sempre em momentos de crise. Uma nova economia vai surgir, e certamente meu sonho de infância será realizado.




















































