Droga Raia

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Meus amigos, minha vida

Ela é tão múltipla quanto a diversidade humana e, ao mesmo tempo, tão essencial quanto a necessidade de conviver. Para defini-la, nada melhor que degustá-la. Conheça deliciosas histórias de amizade que celebram a beleza desse vínculo primordial
Texto: Amanda Rahra e Dilson Branco // Ilustrações: Ziraldo, Gabriel Silveira e Fido Nesti
Meus amigos, minha vida
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Entre o Ziraldo de 70 anos atrás, que jogava bola descalço nas ruas de Caratinga, no interior de Minas Gerais, e o de hoje, lenda viva do cartum brasileiro, restaram poucas coisas em comum. Uma delas é o convívio com Galileu, o garoto lourinho que morava na rua dos ricos, usava sapato e meia e na 2ª série foi parar na classe do futuro desenhista. “A partir dali, sentamos juntos pelo resto da vida”, lembra Ziraldo.

Quando Marina Maggessi entrou para a Delegacia de Repressão a Entorpecentes do Rio de Janeiro, no início dos anos 1990, talvez já sonhasse com as famosas prisões dos grandes líderes do tráfico de drogas que realizaria nos anos seguintes. Porém, dificilmente imaginava que, naquele ambiente de trabalho tão tenso, violento e masculino, ela encontraria o conforto de oito almas gêmeas: “São meus meninos, meus irmãos. E quem precisa de algo mais, com uma família dessas?”, pergunta.

A mãe do professor e escritor Gabriel Chalita não conseguia entender por que, aos 6 anos, ele ia tanto ao asilo próximo de sua casa, conversar com uma das senhoras que ali viviam. Na adolescência, também era curiosa aquela mania dele de passar horas com a escritora Ruth Guimarães, observando-a escrever à máquina debaixo de uma figueira. Na faculdade, era da professora Olga de Sá que Gabriel não se desgrudava. “Essas mulheres me incentivaram a sonhar e a realizar sempre, por mais difíceis que fossem os obstáculos”, explica.

Os elos que caracterizam o inusitado de cada uma dessas histórias são difíceis de definir. Para pensadores da Antiguidade, a amizade é o bem mais nobre concedido à humanidade, maior do que a justiça e a paixão e anterior aos laços familiares. Artistas não se cansam de exaltá-la: amigos são para guardar do lado esquerdo do peito, a ajuda certa nas horas incertas, e estão para a prosa assim como o amor está para a poesia.

Especialista no assunto, a professora do departamento de psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais Luciana de Souza tenta racionalizar o conceito.  “Amizade é a troca intensa de beijos e abraços, a revelação de um maior número de assuntos com mais profundidade, um relacionamento importante para o desenvolvimento social, emocional e também cognitivo”, diz. A filósofa Márcia Tiburi vai por outro caminho: “É uma relação gratuita e sem objetivos além do prazer de conviver com alguém que significa algo para nós”.

Na verdade, é tudo isso e muito mais. É ter prazer em falar e em ouvir. Compartilhar as maiores angústias e os pensamentos mais ridículos. Conhecer o outro para entender quem somos. Discutir aos gritos e se sentir confortável no silêncio. Estar perto mesmo a distância. Crescer junto, dividir memórias individuais. Gozar e ser gozado. Atrair sem prender. Aprender e ensinar. É o núcleo de toda relação verdadeira. É companhia, segurança, apoio, diversão. Ou, simplesmente, tudo isso é a amizade.

70 anos de empenho

“Criança faz pacto de sangue, jura amizade eterna”, conta Ziraldo, relembrando seus tempos de menino. Foi assim com ele e o advogado Galileu da Costa, nos idos de 1937. A promessa também incluía um terceiro elemento, o Augusto, vulgo Carrapato. Fosse na aula ou depois da escola, brincando na rua, lanchando na casa do outro ou aprontando com os colegas, eles estavam sempre juntos. “A amizade infantil caracteriza-se pelo divertimento, pela mútua consideração, pela cooperação, pelo bom manejo de conflitos e pelo desejo de passar mais tempo na companhia do outro”, afirma a psicóloga Luciana.

Na adolescência, a relação passa a pressupor mais lealdade, confiança e intimidade. “Requer interesses comuns e comprometimento, tanto para formar novas amizades como para manter as antigas”, diz Luciana. Ziraldo e Galileu passaram dessa fase. Augusto ficou para trás. “Quando nos reencontramos na vida adulta, não tínhamos mais nada a ver um com o outro. Foi bem quando a minha mãe morreu”, conta o cartunista. Se por um lado o momento marcou o fim de uma amizade, por outro fortaleceu a ligação dele com Galileu: “Ele estava sofrendo tanto quanto eu, assim como eu compartilhei da mesma dor quando a mãe dele se foi”, lembra Ziraldo.

No ginásio, a dupla se tornou um quarteto. Com Pedro Vieira, a afinidade nasceu da diversidade: esportista, ele mostrou a Ziraldo o prazer de jogar basquete. Com Alan Viggiano, o interesse comum foi, em princípio, um obstáculo: ambos gostavam de ler e escrever poemas e, por isso mesmo, um tachava o outro de pretensioso. Convivendo, a concorrência virou admiração.

Na faculdade, os quatro foram morar juntos em Belo Horizonte, e novamente o círculo se ampliou. A turma que dividiu a mesma república inspirou Ziraldo a criar os personagens de sua primeira história em quadrinhos: A Turma do Pererê. Galileu deu nome à onça; Pedro, ao tatu; e Alan, ao macaco. Moacir, irmão de Alan, batizou o jabuti; Paulo Nogueira, o intelectual do grupo, virou a coruja; Antônio Pimentel e sua namorada Quiquica se transformaram num casal de joões-de-barro; e o coelho ganhou o nome do irmão mais novo de Ziraldo, Geraldinho.

Marina conheceu seus melhores amigos no trabalho, enquanto
prendia os maiores traficantes do Rio de Janeiro.
Mas é como se tivessem crescido juntos


Os amigos freqüentavam as mesmas festas, usavam as roupas um do outro, compartilhavam segredos e problemas. “Eu e o Galileu namorávamos duas amigas e freqüentávamos juntos tanto a missa como as salas de cinema. Acabamos nos casando com elas, e um foi padrinho do outro”.

A partir dessa fase da vida, a manutenção das amizades costuma se tornar mais difícil: “Depois do casamento, o parceiro e os filhos tomam um tempo que antes era dedicado aos amigos”, afirma a professora Luciana. Mas Ziraldo soube conciliar os relacionamentos, e explica que o segredo está na dedicação: “Amigo não se desincumbe, se empenha. O resto é cordialidade”, define o cartunista. A filósofa Márcia Tiburi concorda que essa postura ativa é fundamental: “Quem quiser um amigo que dê amizade. Quem ficar esperando esperará sentado. Temos de nos dedicar aos amigos, como a tudo que é sério na vida”.

Dia desses, Ziraldo esqueceu sua bolsa em um táxi de Belo Horizonte. Ligou para Galileu e o incumbiu de encontrá-la. “Claro que ele encontrou e mandou pra mim imediatamente”, conta. Quando Ziraldo é requisitado, também sabe que não pode falhar. E às vezes não é preciso nem muito esforço para ajudar. Há alguns anos, a mulher de Alan, que vive em Brasília, teve câncer. Muito abalado, ele telefonou para Ziraldo e perguntou se poderia passar uns dias em sua casa no Rio. “Ele chegou, deitou-se no sofá do meu estúdio e ficou lá calado, enquanto eu trabalhava. Às vezes pegava um livro, dormia um pouco”, lembra o cartunista. Não foi preciso falar quase nada: “No quinto dia ele se levantou do sofá, disse ‘muito obrigado pelo apoio moral’ e foi embora”, conta.

Mesmo morando longe – Alan em Brasília, Pedro e Galileu em Belo Horizonte e Ziraldo no Rio de Janeiro –, eles se encontram periodicamente e não faltam nas festas de aniversário um do outro. “São como irmãos que moram longe”, afirma o desenhista. Luciana explica a importância da manutenção desses vínculos durante a velhice: “O cultivo de amizades entre idosos é essencial para a felicidade dessas pessoas. Os amigos mais antigos são buscados para a troca de confidências, o aconselhamento e a relembrança de eventos vividos em conjunto”. Ziraldo, hoje com 76 anos, sabe quanto isso é essencial: “A amizade é um bem maravilhoso. E é engraçado como os laços firmados bem cedo são os mais fortes. Amigos mesmo são os que se adquirem na infância e se mantêm pelo resto da vida”.

Família de farda

A policial carioca Marina Maggessi conheceu seus oito meninos na Delegacia de Repressão a Entorpecentes do Rio de Janeiro, já adulta, trabalhando nas operações que levaram à prisão de Uê, Marcinho VP e mais uma penca de traficantes famosos nos anos 1990. Mas é como se Salsicha, Ferreira, Amaury, Carvalho, Frugoni, Moreno, Guimarães e João fossem seus amigos de infância. “Temos, em média, 50 anos de idade, mas quando estamos juntos parecemos crianças, talvez por sermos todos muito gozadores e por compartilharmos uma visão do mundo e da profissão muito semelhante. Parece que fomos criados juntos”, afirma Marina.
 
Quando não estão na delegacia, continuam unidos, seja nos churrascos promovidos depois das religiosas partidas de futebol às segundas-feiras, seja nos fins de semana de pescaria. E, quando um faz aniversário, se reúnem sempre na mesma churrascaria, numa festa que começa ao meio-dia e termina pra lá de meia-noite. “Não acompanho a pescaria e confesso que não sou boa de bola, mas faço questão de assistir aos jogos pra depois aproveitar o churrasco com a turma”, conta a amiga. Em meio a programas tão tipicamente masculinos, Marina pode parecer estranha no ninho, mas na verdade ela é uma figura central nessa equipe, a grande responsável por mantê-la unida há 18 anos.

A mãe do garoto não compreendia que tanto ele ia fazer no asilo. “Não havia
o que entender, e a magia estava justamente nisso”, afirma Gabriel

Se o Salsicha está bravo com o Ferreira, por exemplo, ela fala mal do comportamento de um para o outro e os dois acabam se voltando contra ela. “Mas ninguém fica bravo comigo por muito tempo, e a situação logo se resolve. Agora, se o clima esquenta de verdade, tiro a arma dos dois briguentos e os tranco numa sala até que se entendam. Quando a gente discute com platéia, espera o apoio dos outros, e amigo mesmo sabe bem como resolver no plano mais íntimo”, diz Marina.

Além de mediadora, ela é a confidente dos rapazes. Eles preferem compartilhar frustrações, medos e derrotas com ela, e não com os amigos homens. “Brigo quando acho que tenho de brigar, mas tento sempre colocá-los pra cima e mostrar outro ponto de vista”, fala Marina. Essa característica é típica das amigas mulheres, explica a professora Luciana. “Elas costumam cultivar amizades mais íntimas, próximas e divertidas, envolvendo maiores trocas afetivas, enquanto os homens valorizam as atividades em conjunto e o tempo investido na amizade.” 

Tamanha intimidade entre homens e mulheres cria rumores de que há algo mais além da amizade. De fato, no caso de Marina, já houve – ela confessa que uma vez se apaixonou por um dos meninos da turma. Para a filósofa Márcia Tiburi, essa tensão sexual pode atrapalhar a amizade, mas também pode não vir ao caso. “Pode virar amor, casamento, só uma noite boa ou até um tormento. Mas verdadeiros amigos não deixaram de sê-lo por causa da existência ou não de sexo. Aliás, nesses momentos marcados por experiências de limite é que podemos ver quem são os verdadeiros amigos.” A paixão foi superada e até contribuiu para aprofundar a amizade – não só entre Marina e o pretendente, mas na turma toda, que faz piada até hoje do caso.

Há dois anos, Marina foi eleita deputada federal e passou a morar em Brasília. Mesmo distante geograficamente, faz questão de falar com os amigos pelo menos uma vez ao dia e todos os fins de semana volta ao Rio para encontrá-los. Para ela, os amigos são uma família, assim como Ziraldo chama seus velhos camaradas de irmãos. “Como na cultura brasileira os laços familiares são considerados os mais importantes, quando elevamos um amigo à categoria de parente, queremos enfatizar que essa amizade é muito especial”, diz a psicóloga Luciana.

Marina, que mora sozinha, sabe que, na prática, uma relação não substitui totalmente a outra. “Quando me sinto só, procuro o colo amigo, mas, por mais presente que ele esteja, tem a própria casa e vai embora”, diz. Mas isso de maneira alguma significa um amor menor, ou uma ligação menos profunda. Na confraria da policial, ausências físicas são compensadas por telefonemas no meio da madrugada, sempre que necessário. Mais de uma vez um dos amigos de Marina sonhou que ela chorava e ligou para saber se estava tudo bem. E eram justamente momentos em que ela passava por problemas. A sintonia é tanta que não há mesmo outra categoria de relação para comparar: “Não vejo outra maneira de classificá-los, senão como uma verdadeira família”, diz Marina.
 

Ensina-me a viver

Dona Ermelinda está sentada numa cadeira de balanço no asilo de Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo. Há muito tempo ela não vê os filhos. De repente, entra na casa um menino de 6 anos. Vem sozinho, sorridente, dá-lhe um beijo e um abraço, senta-se perto e põe-se atento a ouvir as fábulas e histórias da literatura universal que ela não se cansava de contar. Há cerca de 30 anos, essa cena se repetia com freqüência. O menino, Gabriel Chalita, hoje professor e escritor, ex-secretário da Educação do Estado de São Paulo, não tinha o mesmo sangue da professora primária aposentada. Mas era como se tivesse.

“Seus filhos a abandonaram ali. Eu a adotei. Éramos amigos”, conta Gabriel. A mãe do garoto não compreendia que tanto ele ia fazer no asilo. “Não havia o que entender, e a magia estava justamente nisso”, conta. Mas, sob a beleza aparentemente inexplicável daquela relação, havia um elo de utilidade: Gabriel era um menino ávido por aprender, e Dona Ermelinda, uma educadora solitária, cuja vocação andava perdida. A dupla se completava. “Jovens curiosos e inteligentes gostam de pessoas mais velhas porque são capazes de apreciar nelas a experiência, a capacidade de narrar o passado mostrando o que havia de bonito e verdadeiro num tempo em que só é alcançado pelo jovem por meio de seu testemunho”, explica Márcia Tiburi. “Os mais velhos, por sua vez, acessam a cultura e os valores do tempo presente por meio dos jovens. É uma troca de experiências que envolve sensibilidade e inteligência das mais ricas.”

Envolve, também, grande satisfação de estar junto. E a utilidade e o prazer, segundo a psicóloga Luciana de Souza, são os dois caminhos mais comuns para fazer nascer a verdadeira e profunda amizade. “Se as pessoas de alguma maneira se completam e gostam de estar juntas, provavelmente vão fazer isso com mais freqüência, e, à medida que o tempo passa e as afinidades se mostram, mais intensa se torna a relação, aumentando o nível de confiança, lealdade e honestidade”, explica. No caso de Gabriel e Ermelinda, esse aprofundamento se estendeu até o fim da vida da professora. Ele nunca deixou de vê-la e, já maduro, fez questão de mostrar a ela seus primeiros livros. “Ela os ouvia pela minha voz, já que não podia mais ler”, conta.

No decorrer de sua vida, Gabriel cultivou outras amizades com grande diferença de idade que o inspiraram a ser o que ele é hoje. O mesmo livro que leu para Dona Ermelinda pouco antes de ela morrer entregou à escritora Ruth Guimarães, que desde a adolescência o inspirou a seguir carreira nas letras. “Minha relação com Ruth envolvia poucas palavras, mas eu sabia que era seu amigo, pois ela me deixava estar a seu lado, estar na sua casa – aberta para poucos – para observá-la teclar na máquina de escrever debaixo de uma figueira”, lembra. Quando ingressou na faculdade, ele conheceu aquela que despertou sua paixão por ensinar, a professora de filosofia Olga de Sá. “Cheguei muito jovem à experiência do meu primeiro mestrado. Angustiado, foi em seus conselhos e em sua paciência que encontrei conforto. Começava ali uma grande amizade”, rememora. “Todas essas mulheres me protegeram. Foram e são minhas amigas.”

Gabriel Chalita rompeu a barreira do tempo para formar laços intrínsecos com mulheres muito mais experientes do que ele. Ziraldo desafiou as décadas, mantendo amizades por 70 anos. Marina Maggessi encontrou em oito policiais durões a família que não teve. Por serem pouco comuns, essas histórias nos ajudam a enxergar a beleza da amizade. Mas ela não se restringe às exceções. Pode estar presente em todo tipo de interação que nós estabelecemos no nosso dia-a-dia. Abrangendo a ampla diversidade humana, a amizade é a essência de toda relação. Simples assim. Complexo assim. Ou, como disse Aristóteles, numa das mais célebres definições desse amor: “Amizade é uma única alma vivendo em dois corpos”.

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Amigos são a família que a gente escolhe!!!
letícia vaz
amei a materia.
bem.antes de tanta tecnologia...fiz grandes amizades por correspondencia.quase todos os estados e alguns fora do pais.tempos bons.
tenho saudades.agora com a internete ficou dificil solidificar amizades;como
daquela epoca.
edna
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