Droga Raia

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editorial

Faço, logo existo

"Um dia notei que não estava trabalhando por nenhuma razão importante. Então, lembrei do meu pai. Entendi por que ele havia sido tão turrão – e como tinha toda a razão"
Texto: Roberta Faria // Foto: luciano.silva
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Quando conto que sou filha de médico, geralmente pensam que venho de família rica. Não é o caso. Meu pai dedicou a carreira à saúde pública. Hoje, é o único médico na sua região, no interior de Santa Catarina, a cuidar de pacientes com HIV positivo. Como a maioria dos profissionais de postos de saúde brasileiros, ele ganha pouco. Comprou uma Brasília quando eu nasci e só a trocou quando nós duas fizemos 18 anos. Com três filhos, foi ter casa própria perto de completar 50 anos. Nunca tivemos luxos: viagem de férias era pegar um ônibus para visitar parentes, roupas e livros eram herdados – essas coisas da classe média.

Não precisava ter sido assim. Ele poderia, como muitos colegas, virar médico particular e cobrar 200 reais a consulta, e teríamos até casa na praia. Só que ele não admite isso, porque acha que as pessoas têm o direito de ser bem atendidas no sistema público. Por esse ideal, armou brigas quixotescas e perdeu trabalhos. Mas é adorado pelos pacientes. E acha que dinheiro nenhum vale a sua ética.

Sempre me orgulhei dele. Mas, durante a adolescência, dei razão para minha mãe: ele bem podia ser menos teimoso, dividir o tempo com um consultório. Eu não chegava a reclamar, mas no fundo queria coisas que ele não podia comprar, e morria de vergonha da Brasília enferrujada.

Quis para mim uma vida mais bem-sucedida. E tive, por sorte e esforço, um primeiro emprego incrível – um trainee sonho de consumo de jornalistas recém-formados. A cenoura do sucesso brilhou na minha frente, e, por algum tempo, a vida pareceu muito boa nesse caminho. Até o dia em que as emoções da conquista se esgotaram. Passei a me sentir inquieta. E culpada: afinal, eu tinha tudo...

Foi no momento em que me perguntei “por que faço o que faço?” que eu entendi o problema: não estava fazendo meu trabalho por nenhuma razão importante. Era por status, por dinheiro, para ver meu nome impresso em uma revista famosa. Era porque todo mundo achava aquele trabalho uma honra, e eu não conhecia outra versão do sucesso que não fosse fazer uma bela carreira, em uma grande empresa, nas redações mais famosas.

Então, comecei a pensar no meu pai. Que trabalha até hoje – ele tem 67 anos e não se aposenta – não pelo salário nem pelo reconhecimento, mas por seus valores (e só por eles). Entendi, finalmente, por que o doutor Roberto havia sido tão turrão – e como tinha toda a razão.

Pedi demissão. Pouco depois, por sorte, encontrei alguém – o Rodrigo, “pai” da Sorria – com a mesma vontade de fazer diferente. Juntos, criamos a Editora MOL. No caminho, reunimos pessoas que, como nós, estavam procurando outra versão do sucesso – como o Dilson, editor da revista e um dos meus melhores amigos, que largou um caminho seguro para me acompanhar nessa aventura.

Provavelmente estaríamos ganhando melhor e sendo mais respeitados por nossos pares se tivéssemos perseguido a versão tradicional do sucesso. Mas ela não é a que nos satisfaz. Somos mais felizes em um lugar pequeno, onde estamos entre amigos, fazemos coisas que achamos úteis e boas para as pessoas, do jeito que acreditamos ser o certo. Um lugar onde podemos compartilhar as ideias e os valores. Um lugar que não é o melhor do mundo, eu sei, mas é onde temos a chance de construir um mundo melhor, uma vida melhor, segundo as nossas próprias medidas.

Eu entendi, enfim, que não preciso ser bem-sucedida: preciso é ser realizada. Até agora, isso significou repetir o caminho do meu pai: também moro de aluguel, não tenho carro, só viajo pra visitar a família, e minha filha não exibe as coisas da moda que as colegas têm. Espero conseguir um pouco mais, é claro. Mas nunca ao custo do que realmente importa: saber, todos os dias, por que faço o que faço – e poder me orgulhar (muito) disso.

P.S. 1: Esta é nossa edição de aniversário. São dois anos fazendo Sorria. Ela é o maior sucesso. Não só meu, mas de todos que apostaram em fazer diferente. Obrigada!

P.S. 2: Esta edição também tem mudanças. Novas seções e uma nova equipe no comando: os editores André, na arte, e Dilson, no texto. Eles estão na Sorria desde o começo e agora ficarão à frente da revista (mas eu continuo aqui, no editorial, em todas as edições – isto não é uma despedida!). São meninos incríveis, divertidos e generosos, que vão deixar a Sorria melhor ainda.

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Roberta,

queria deixar registrada aqui a minha admiração por você e pela equipe da sorria. Esse editorial provocou profundas reflexões em mim. A cada matéria lida uma satisfação enorme com tantos textos e histórias bem contadas. Sou fã de vocês e obrigada por fazerem a Diferença na minha vida.
Anna Andrade
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