Droga Raia

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editorial

À segunda vista

Texto: Roberta Faria
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Foi ali pelos 25 anos que bateu a crise. Até então, a vida tinha um curso bem planejado: estudar, fazer faculdade, arrumar um emprego, tornar-me independente, esforçar-me para progredir. E depois? Bem, ninguém tinha me falado nada sobre o que vinha depois. Para minha geração, o complemento de casar, ter filhos e dar entrada na casa própria era uma possibilidade para o futuro, não mais uma obrigação compulsória, a cumprir antes dos 30 anos. E, se não fossem estes meus planos...

“Então é isso?”, eu me perguntava, angustiada. Trabalhar, pagar contas, cumprir as tarefas da rotina, torcer para ser promovida e ser chefe aos 40. É só isso?

Fui ficando triste. Achava que as coisas seriam diferentes. A vida não era ruim – tinha um bom trabalho, amor, amigos, saúde. Mas (e desculpe se soa mimado) não era aquilo que eu esperava. E me sentia perdida. Devia voltar para a faculdade? Viajar? Mudar de emprego?

Primeiro, tentei transformar as pequenas coisas: cortei o cabelo, troquei os móveis de lugar, fiz dança de salão. Conversei com muita gente. Li livros. Fui a um psiquiatra e a um psicólogo, fiz acupuntura, tomei antidepressivos, meu avô me benzeu. Não sabia de onde vinha a insatisfação, nem o que poderia fazer para curá-la.

“Faça o que você ama” foi o conselho que mais recebi. Eu deveria encontrar minha maior paixão e investir nela. Só assim eu preencheria o vazio que me tomava.

Por um tempo, acreditei nisso. E revirei minha vida procurando o que poderia ser essa paixão avassaladora. Gostar, eu gostava de muitas atividades. Mas, do jeito que as pessoas falavam, parecia que eu devia procurar outra coisa, que me atingiria como um raio e mudaria tudo.

Demorou para entender que eu não tinha que fazer o que amava. Tinha é que aprender a amar o que eu fazia.

A vida adulta é mesmo diferente do que imaginamos antes de chegar a ela. Tem muito mais obrigações para dar conta, e muito menos momentos espontâneos. De dez vontades que temos, com sorte dá para realizar um par delas – as outras ficam guardadas para quando der. De dez ideias geniais, terá sido sucesso se uma der certo.

Percebi que o que me faltava não era paixão, mas humildade. Eu não era tão especial assim. Nada seria só do meu jeito, no meu tempo. Precisava negociar e ceder, porque essa é a única maneira de fazer as coisas acontecer. Sempre faltariam horas, sempre faltaria dinheiro. Era preciso aceitar que “bom” às vezes é o mais perto que chegaria da perfeição. Que ninguém faz só o que gosta. Que o mundo é injusto. E que é preciso fazer o que tem que ser feito – a única escolha é se será com boa ou má vontade.

Isso não torna a vida necessariamente triste – desde que a gente aprenda a amar o que tem a fazer. Como? Talvez lembrar o porquê ajude. Trabalho para dar conforto à minha família. Parei de fumar para ter filhos e vê-los crescer. Cozinho o jantar e faço a lição de casa com a minha filha todo santo dia porque quero que ela sinta que me importo. Escovo os dentes para evitar ir ao dentista.

Sendo muito sincera, há vários dias em que eu preferiria não fazer nada disso. Bem queria poder dizer que tudo o que faço é porque adoro demais. Não é. Mas aprendi a amar minhas responsabilidades para cumpri-las sem que me pesem. E, sabendo o porquê de fazer, me senti novamente preenchida de sentido e tranquilidade.

Essa crise me ensinou que a maior motivação da vida não é a paixão. É o dever. Bem menos romântica – não dá pra dizer “ah, eu nasci pra isso!” lavando louça. Mas nem por isso ela é menos recompensadora. Esse senso de realização imprescindível à felicidade – de que somos importantes e úteis, de que fazemos diferença, de que as pessoas contam conosco – nasce não (só) de feitos mirabolantes, mas das pequenas tarefas de cada dia. Que podem não despertar amor à primeira vista. Mas cuja soma dos resultados é o que nos faz amar a nossa própria vida.

Esta edição traz exemplos extraordinários de gente motivada a seguir com missões que, bem, olhando de longe, ninguém teria boas razões para assumir. Ver como estas pessoas encaram cada manhã iluminou meus dias. Espero que traga mais luz aos seus também.

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Comentários:
Estou nos passos finais de minha crise e ao ler este texto senti que uma dose extra de combustível foi injetada no meu coração. Há quase um ano estou em tratamento de transtorno de ansiedade generalizada, com o uso de todas as armas disponíveis, médica psiquiátrica, remédio, terapia, acupuntura, nutricionista, caminhada...e finalmente estou enxergando adiante a possibilidade de não viver a todo o tempo pronta a estourar, que as coisas não sairão como planejei e que não morrerei do coração. Que ainda tenho muito o que ser feliz e que tenho sim motivos para ser feliz e que terei sim problemas, mas também forças para passar por eles e que outros mais virão. E como você, concluo que hoje eu entendo que eu tenho de aprender a amar o que eu faço e devagar e sempre estou amando!!
Obrigada pela sua bela e inspiradora escrita, guardarei essas palavras para lê-las sempre que eu precisar, como um bálsamo que me dará ânimo na minha jornada rumo a vida bem vivida.
Mônica Grace
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