O homem de 5.000 amigos

Foto: J. Freitas/ABr
Falecido neste fim de semana, aos 95 anos, o empresário e bibliófilo José Mindlin foi um dos entrevistados da matéria “Prazer de mão em mão”, publicada na seção Conviver da Sorria nº 6. Em sua homenagem, republicamos o texto, que fala sobre o prazer da leitura. Confira!
Prazer de mão em mão
Se você está aí procurando alguma coisa nessas letrinhas, já deve saber: ler é uma delícia. Tão bom que dá vontade de passar o hábito adiante. Conheça histórias de quem se apaixonou pela leitura – e, agora, compartilha esse amor
Por Simone Cunha
Em 94 anos de vida, o empresário José Mindlin colecionou 5.000 amigos. Cada um deles contribuiu para que os dias de José fossem mais intensamente vividos, divertidos, emocionantes, coloridos. Eles contaram histórias inacreditáveis, o levaram a lugares sobre os quais ele nunca havia ouvido falar, explicaram coisas que ele sempre quis saber, inspiraram idéias geniais, o fizeram rir, chorar, refletir, descobrir quem ele era, ter vontade de ser alguém novo… e conhecer mais e mais amigos. Sempre que sente saudade de algum, José não precisa telefonar, mandar carta, atravessar a cidade. Basta ir até sua biblioteca particular, em cujas prateleiras seus 5.000 amigos estão devidamente acomodados.
“Livros são amigos silenciosos que estão sempre prontos para serem abertos, não reclamam de terem sido esquecidos durante dezenas de anos, e, quando a gente pega, fica espantado de não ter feito isso antes, tamanho é o prazer”, compara José. Sempre que pode, ele anda com um livro na mão. Quando surge uma folga, pára e mergulha no mundo que as letras têm a lhe oferecer. Desde pequeno é assim. José começou a ler estimulado pelo hábito dos pais. Seu primeiro amigo de papel foi o Tico-Tico, revista de quadrinhos pioneira no Brasil. Conforme foi amadurecendo, o interesse se estendeu a obras mais complexas. Naturalmente, sem obrigação, como ele acha que deve ser. “A leitura é um mundo de liberdade intelectual. Cada um vai escolher seus temas preferidos. Você tem de ler o que te atrai”, diz.
Barbara Duraes de Oliveira, de 10 anos, sente-se atraída por contos de fada e outras tramas em que desejos impossíveis se realizam – como uma boneca de pano falar. Aos 6 anos, ela entrou numa biblioteca pela primeira vez, acompanhada do pai e dos irmãos. “No começo, ficava brava porque minha irmã lia bem e eu ainda estava aprendendo. Meu pai dizia para eu ter paciência. Hoje, nós duas devoramos os livros”, conta. Nos últimos quatro anos, ela se tornou freqüentadora da mais antiga biblioteca infantil do país, em São Paulo, e apaixonou-se pela obra do escritor que dá nome à casa: Monteiro Lobato. Barbara gosta tanto do Sítio do Pica-Pau Amarelo que encena as histórias num grupinho de teatro. “Eu sou a Tia Anastácia”, orgulha-se.
E não é só representando que Barbara compartilha com outros seu prazer pelas histórias. Recentemente, ela adquiriu outro hábito: ler para os outros. Numa tarde dessas, passeando por uma praça com um livro debaixo do braço, fez um amigo boliviano. “Ele não sabia muito bem português. Eu lia, ele perguntava o que significava, eu explicava e ele foi aprendendo”, conta. Contando com gosto as histórias que ama, Barbara incentiva outros a se apaixonar também.
A aposentada Sonia Cervi, de 58 anos, não tem a paciência dessa menininha, mas também adora compartilhar seus livros. Sempre fez doações a bibliotecas e trocas em sebos, e em maio de 2008 conheceu uma nova modalidade: o bookcrossing. Nascido nos Estados Unidos, em 2001, esse movimento se baseia na seguinte prática: o abandono intencional de livros em lugares públicos, para que outras pessoas os achem, leiam e passem adiante. Na internet (www.bookcrossing.com) é possível saber em que locais do mundo foram vistos pela última vez os 5 milhões de livros cadastrados no sistema. Quem encontra deve avisar e informar onde deixará a obra depois de ler. Em sete meses, Sonia já abandonou 200 livros por aí. “O mais importante é alguém ler o livro. Se você souber que ele chegou a uma pessoa e ela leu, valeu a pena.”
Quem sabe bem como é essa sensação é o pessoal da Expedição Vaga Lume, associação sem fins lucrativos sediada em São Paulo que, desde 2001, se dedica a montar bibliotecas em comunidades rurais da região amazônica. Nesses sete anos, já foram erguidas 127. “Queremos mostrar que o livro não precisa ser algo quieto, individual, mas um objeto que pode ser usado junto, se divertindo”, diz a educadora do projeto, Joana Arari. Para isso, eles não só levam os livros como organizam animadas leituras coletivas, conquistando crianças e adultos que muitas vezes nem imaginavam como ler podia ser divertido.
José Mindlin também já descobriu que o hábito é contagioso. E que às vezes nem é preciso muito esforço para passá-lo adiante. Foi assim com sua faxineira: “A Maria Dulce era muito rápida para limpar a biblioteca, porque não se interessava pelos livros. De repente, começou a perceber o que tinha nas mãos. Abria, folheava, lia. Passou a demorar três vezes mais tempo. Se achei ruim? Perder alguém para os livros é a melhor coisa que pode acontecer”.
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Publicado por Sorria*
Categoria Chaves da Cidade, Sem categoria









Surpreende-me tanta Cultura em só 1 homem….
Decola esse a só mais algumas palavras
“Fim de uma Vida”
Inicio sabe-se lá doque
Levou-a seus Conteudos..
José Mindlin
A mais Paz