O peso e a leveza
Vítima do terremoto que ontem atingiu o Haiti, Zilda Arns, a fundadora da Pastoral da Criança, foi nossa entrevistada na Sorria nº 7. Confira abaixo o texto na íntegra.

Zilda Arns desafia a pobreza e a morte. Preside a Pastoral da Criança. Foi indicada ao Nobel da Paz. Também se criou na zona rural, casou-se, teve cinco filhos. E como sonha…
Texto: Nina Weingrill
Foto: Gilson Camargo
Zilda Arns gosta de combinar o tom do batom com a cor da blusa. Usa os cabelos louros alinhados. Em sua sala de trabalho, em Curitiba, uma poltrona a conforta em seu cochilo depois do almoço. O ar sereno contrasta com o turbilhão de tarefas do dia: telefonemas para o ministro da Saúde, papéis a assinar, uma premiação a receber. Mais uma, entre dezenas acumuladas nos quadros da antessala.
Indicada ao Prêmio Nobel da Paz duas vezes, Zilda, aos 75 anos, é fundadora da Pastoral da Criança, braço social da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A organização mantém uma rede de 261 mil voluntários que ajudam mais de 1,8 milhão de crianças pobres a crescer saudáveis – apoio que pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Nas 42 mil comunidades atendidas pela Pastoral, a mortalidade infantil caiu a 11 mortes a cada mil crianças nascidas vivas, enquanto a média nacional é de 21,2. Tudo com ações simples, como ensinar a fazer soro caseiro e dar orientações sobre alimentação e higiene para famílias esquecidas pelo mundo.
Doutora Zilda Arns, médica, educadora, mãe – não, ela não é freira, como muitos pensam –, viveu para cuidar dos outros. Conheça a mulher que também ficou viúva cedo, criou cinco filhos e superou as crises de uma vida à frente de seu tempo.
Você foi criada para ser educadora?
Zilda – Nasci em Forquilhinha, interior de Santa Catarina. Rural, sem luz nem posto de saúde. Mas tínhamos a melhor escola da região. Ser professor era a profissão mais importante para papai. Dos meus 12 irmãos, nove são professores.
E por que foi para medicina?
Zilda – Minha mãe era como uma agente de saúde da comunidade e eu adorava observar e ajudá-la. Como não tínhamos médico, ela curava doenças com remédios caseiros. Papai ia a cavalo visitar as famílias para ensinar como prevenir-se contra a varíola. Essas coisas formaram minha cabeça em volta da medicina. E tive certeza dessa vocação quando, com uns 10 anos, vi um filme sobre uma missionária que visitava pessoas com malária na Amazônia. Aquilo me tocou.
E como era ser médica há 50 anos?
Zilda – Comecei a cursar medicina em 1953. Passei em 36º lugar entre 980 candidatos. Eram 6 mulheres e 114 homens. Um professor me reprovou no primeiro ano, bem eu, sempre das primeiras da sala. Ele dizia que era absurdo uma mulher cursar medicina. Mas virei pediatra, justo a matéria dele.
E como ficava a vida doméstica?
Zilda – Eu pensava que era melhor nem casar. Como cuidar dos filhos e da profissão? Daí comecei a namorar meu marido e ele me tirou o medo. Tive cinco filhos, trabalhando todo o dia. Como no bairro, em Curitiba, não havia médico, minha casa era um pronto-socorro.
Como foi parar na saúde pública?
Zilda – Sempre trabalhei em hospitais públicos e postos de saúde. Quando, em 1978, a Organização Mundial de Saúde ordenou que se descentralizassem os postos de saúde, levando o atendimento para a periferia, o governo do Paraná me convocou. Trabalhei um ano como pediatra em duas periferias de Curitiba e fui promovida a diretora do posto.
O cargo não assustou?
Zilda – Quase não aceitei, pelos filhos. Mas eu tinha duas empregadas. Sempre estava em casa para almoçar, e à noite eu e meu marido não saíamos. As crianças eram prioridade. Mas, nesse mesmo ano, 1978, meu marido faleceu. Meu filho mais velho tinha 14 anos e o menor, 4. Fiquei um tempo afastada, mas senti falta do trabalho. Acabei indo para o planejamento da Secretaria de Saúde.
Foi lá que a senhora começou a conciliar saúde e educação?
Zilda – Quanto mais baixa a escolaridade da mãe, maior a mortalidade infantil. Então, todo profissional tem de ser também educador. Em 2009 completo 50 anos como médica, mas atuei mais na educação do que na medicina. Sem educação, trava-se uma luta pela sobrevivência, não para se desenvolver.
Como surgiu a Pastoral da Criança?
Zilda – Em 1983, o arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, meu irmão, me ligou dizendo que a Unicef pedira ajuda para ensinar as mães a fazer o soro oral, considerado o maior avanço da medicina do século passado (também conhecido como soro caseiro). A Pastoral nasceu daí, com a idéia de educar as pessoas para que elas passassem adiante o conhecimento básico de saúde, voltado para a prevenção.
E como funcionava?
Zilda – Escolhemos líderes voluntários, que eram treinados para ensinar às famílias sobre saúde da gestante, pré-natal, aleitamento, hidratação oral, vacinação e nutrição. Começamos em uma paróquia. Nós pesávamos as crianças, ensinávamos a fazer o soro e visitávamos famílias. Uma vez testado, escolhemos Floristópolis (PR), então o município com a maior taxa de mortalidade infantil do estado, para começar. Funcionou, e espalhamos o trabalho por outras dioceses.
As ações da Pastoral são simples, o custo por criança é quase 1 real. O governo conseguiria fazer isso?
Zilda – A maioria das pessoas assistidas era analfabeta, então as tarefas tinham de ser simples, fáceis de executar e replicar. Mas, como o trabalho da Pastoral é produzido por voluntariado, e o voluntário tem amor, não trabalha por obrigação, o projeto não funcionaria se fosse do governo. Ou se gastaria talvez três vezes mais. E nós já estamos em 17 países.
O que você espera para o futuro?
Zilda – A Pastoral atende hoje somente 20% das crianças pobres do Brasil. Tem de expandir. Têm de expandir também a educação e o amor fraterno. O bonito de tudo isso é a metodologia de formar redes de solidariedade nas comunidades. Ajudar é o que faz uma pessoa feliz.
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Emocionante e inspiradora essa entrevista.
Que ela descanse em paz e muitas crianças ainda colham os frutos de seu trabalho amoroso e sábio.
Olá equipe,
vim no blog da Revista Sorria* exatamente para comentar sobre Zilda Arns. Assim que fiquei sabendo da morte dela, lembrei da matéria que li na revista! Ela era fantástica, um exemplo a ser seguido. Literalmente.
Abraços a todos!