Revoluções no vazio
Para um leigo, ficar na pontinha de uma estrutura que se ergue a 10 metros do chão – mesmo que lá embaixo haja uma piscina – pode ser aflitivo. Para Fernando Ribeiro, é apenas um detalhe do esporte que ele pratica há 54 anos: o salto ornamental. A paixão por executar rodopios nos poucos segundos que separam o trampolim da água foi despertada na adolescência, no clube que frequentava, antes de se mudar do Rio de Janeiro para São Paulo. Seu talento foi reconhecido pelos atletas mais experientes, e ele começou a treinar a sério. A certa altura, o pai pressionou: “Vai ficar saltando ou vai trabalhar?”, e Fernando se desdobrou entre faculdade, emprego e piscina. Formado engenheiro, ele se orgulha da invejável carreira paralela: participou de duas Olimpíadas e de três Panamericanos, ganhou campeonatos regionais, nacionais e sul-americanos. Incontáveis vezes, ele teve a sensação de girar no vazio, totalmente livre e, ao mesmo tempo, absolutamente concentrado na tentativa da manobra impecável. “Durante a rotação, sinto que há forças me puxando. Mas consigo prever o momento certo de me esticar. Quando o corpo toca a água, sabemos se o salto foi ou não um sucesso: quanto menos espirrar, maior a nota”, explica. Aos 71 anos, Fernando segue praticando, na piscina com trampolim construída no quintal de casa. E competindo. “Hoje tenho medo de executar alguns saltos, mas faço o melhor que posso”, conta, apressado para embarcar para os Estados Unidos, rumo a mais um campeonato.
Trecho de Roda Viva reportagem da Sorria 8
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