Para desligar o motor
Inspirados pelo Dia Mundial Sem Carro, resolvemos falar sobre transporte sustentável. Até 2 de outubro, a gente vai te mostrar diversas maneiras ecológicas de sair por aí, conhecer a cidade, se divertir… Para começar, que tal esquecer do carro?
Saia andando
Vá com os próprios pés. Ou de bicicleta, patins, metrô, carona, ônibus, balão, rolimã. Mas deixe o carro
em casa de vez em quando
texto: Nina Weingrill
Duas semanas inteiras, dia e noite, trancafiado em um espaço de menos de 4 metros quadrados, onde não dá para ficar em pé nem deitar, respirando gases tóxicos, sendo agredido, no meio de um barulho infernal, sem poder dormir nem ir ao banheiro – e ainda ameaçando a vida no planeta. Esse tipo de tortura é mais comum do que se imagina. Na verdade, é até bem provável que você esteja se submetendo a ela voluntariamente. Este é, em média, o tempo que uma pessoa que dirige diariamente passa dentro do carro a cada ano. Ao fim da vida, terão sido mais de 800 dias no trânsito. O que você faria com esse tempo se pudesse escolher?
O.k., todo mundo sabe que carros são vilões do meio ambiente e que o trânsito anda pavoroso. “Estamos à beira do colapso”, diz André Pinho, urbanista. Não é só em São Paulo, onde toda sexta-feira tem recorde de congestionamento. Capitais como Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Belo Horizonte e Brasília sofrem do mesmo mal. “A estrutura das cidades não suporta tantos carros”, afirma André. Resolver isso depende de soluções como transporte público eficiente, acesso a combustíveis mais limpos e reurbanização. Adianta reclamar se as mudanças estão tão longe de nossas mãos? Opa. Nem tanto. Se não dá para cavar um metrô ou inventar o teletransporte, uma coisa pelo menos a gente fazer: descobrir outro jeito de sair de casa.
O empresário Marcelo Grillo, de 50 anos, o Mig, descobriu a sua maneira quando nem estava procurando. “Minha bicicleta estava encostada havia tempos quando precisei dela para um passeio. Mandei-a para a revisão e, quando fui buscá-la, resolvi sair pedalando”, conta. “Na hora em que o vento começou a bater na cara, tive um estalo.” Há dois anos, aposentou de vez o carro e a moto e vai para o trabalho de bicicleta. Para o analista de sistemas William Cruz, de 34 anos, foi num daqueles dias em que tudo parece dar errado que ele descobriu a coisa certa a fazer. “Estava saindo para o trabalho atrasado e o carro não pegava. Pegar ônibus demoraria mais. Para completar, chovia”, conta. “Resolvi arriscar: peguei a bike e saí pedalando.” Chegou na reunião molhado, mas feliz. “Fiquei tão bem que resolvi ir de bicicleta para a empresa duas vezes por semana, depois três, depois sempre que podia.” Acabou vendendo o carro e hoje alterna a bicicleta com o transporte público.
Como William, para começar, nem precisa ser radical: diminuindo aos poucos o uso, acostuma-se a viver sem o carro – ou, pelo menos, a não “precisar” tanto dele. O músico Du Moreira ainda tem um automóvel na garagem. Mas só pega à noite. De dia, caminha. Aprendeu isso quando morou em Nova York, onde o transporte público era eficiente o bastante para que não sentisse falta de suas quatro rodas. “Antes, ia para qualquer lugar dirigindo. Hoje percebo que usamos o carro por um problema de infra-estrutura. É algo que demora a ser resolvido. Podemos tomar outras atitudes enquanto isso.” Mudar o mundo é difícil. Mudar de hábitos, nem tanto.
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