A equação fundamental
Se sobra tanta comida aqui, porque falta tanta lá? Para começar a zerar os números da fome, essa economista passou a investir contra o desperdício
texto: Amanda Rahra e Simone Cunha
O primeiro dado é forte: falta comida na mesa de 39,5 milhões de brasileiros, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Diante dele, o segundo até grita: de cada dez caixas de alimento que saem de nossas lavouras, mais de seis são desperdiçadas. O problema é grande mesmo, do tamanho de 70 mil toneladas de comida jogadas fora, por ano, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Não parece urgente pegar o que sobra e levar para onde falta? Fazer positivo e negativo se anular? Foi essa a equação que a economista Luciana Quintão, 46 anos, tratou de resolver. Era 1997 e a empresária começava a desenhar os contornos da ONG que batizou de Banco de Alimentos.
A idéia era recolher comida em hortifrútis e indústrias e redistribuir a quem tem fome. No primeiro ano, 1999, menos de 100 toneladas foram arrecadadas. Hoje são quase 350 mil toneladas por ano, que já complementam a alimentação de 22 mil pessoas. Sorria* foi até Luciana para entender como ela opera esse investimento no fim da fome. E como replicar a idéia por aí.
Sorria* – Como surgiu a idéia do Banco?
Luciana – Sou economista de formação, tenho mestrado em economia e sempre fui uma pessoa motivada pela busca do desenvolvimento do homem. E, se somos um país em que o alimento sobra, por outro lado ainda há milhões de pessoas vivendo sem segurança alimentar por não saber se terão o que comer hoje ou amanhã. Quando tive a idéia, me diziam: “Você é maluca”. Eu não sei se eu sou maluca, acho que é o contrário. Faço a parte que me cabe.
A fartura gera desperdício?
Luciana – Abundância por si só não é uma coisa negativa, esbanjamento é que é o problema. Ter e esbanjar, não saber dividir, usar de uma forma irracional, é o erro que a gente está cometendo.
Por que o nome Banco de Alimentos?
Luciana – Porque, historicamente, quando os bancos foram criados, o que a sociedade conseguia investir era justamente o que conseguia poupar. Então pensei em banco porque estou investindo em gente. Todo alimento que entra aqui vai para a sociedade.
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