Taco!
por André Rodrigues
“Passei a melhor parte da minha infância na cidade de Santos, no litoral de São Paulo. Era aquela fase de brigar com os pais e superar os limites físicos para ficar ’só mais um pouquinho’ brincando com os amigos. E como toda cidade pequena e mais segura, íamos além das paredes do quarto ou das grades do prédio. Tínhamos qualquer rua, toda a praia e as casas da vizinhança à nossa disposição. Tempo de futebol descalço no meio da estrada com os gols feitos de chinelo ou tijolo, guerra de bambucha (como chamávamos as bexiguinhas cheias d’água), futebol de botão, Comandos em Ação, campeonato de Street Fighter, estourar bombinha, futebol de praia no fim de tarde, três-dentro-três-fora no portão do prédio, super-trunfo, empinar pipa, fliperamas. Imaginação não faltava para passar os dois meses de férias escolares integralmente longe de casa.
Mas o jogo mais marcante, que mexia com os brios de todo moleque no bairro, era o Campeonato de Taco da rua Dom Lara. Conhecido como bets ou bete em algumas cidades, o taco era jogado no meio da rua, cada time com dois moleques (e se você não tem idéia do que estou falando, clique aqui pra aprender a jogar!). Já nos primeiros dias das férias as duplas eram decididas. Organizávamos as chaves com os confrontos e as datas dos jogos. Depois, vinha a parte mais importante: achar os tacos. Muito mais legal do que comprar o ‘Kit Taco’ vendido nas lojas de brinquedos, era invadir a construção de um prédio na rua para achar seu próprio acessório. Além da adrenalina por estar num lugar proibido, lá encontrávamos a mais completa variedade de madeira, do tamanho e formato que quiséssemos. As casinhas eram feitas com latinhas de refrigerante, com um dedo cheio d’água para não cair com o vento, e a área de segurança seria riscada no asfalto da rua com um pedaço de tijolo. A bola, de preferência de tênis, para quicar mais, era doada por quem tivesse cachorro.
Tudo preparado, o campeonato – que durava em média longos dois dias, se não perdessemos a bolinha antes – começava. As duplas iam entrando na arena conforme o calendário e os jogos eram acompanhados por todos os outros participantes, que esperavam ansiosos a vez, enquanto faziam a parte da torcida. E entrar na arena era como entrar num Maracanã lotado. Gritos da multidão de 20 moleques e frio na barriga desde a disputa de taco até a primeira rebatida. E essa a gente nunca esquece. A bola voando longe rumo ao fim da rua e o estalar dos tacos a cada ponto são lembranças guardadas em uma parte bem especial da memória, ativada sempre que recordo dessa época da vida, em que minha única preocupação era voltar pra casa sem levar puxões de orelha. O que era raro.”

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