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Sobre metrô, bombons e sorrisos

26 de junho de 2009

Por Jeanne Callegari

Você está esperando o metrô. Sua cabeça está longe, pensando nas contas para pagar ou nos trabalhos que tem que fazer. De repente, um desconhecido lhe estende um bombom. Assim, do nada, sem mais nem menos. Você fica na dúvida - será que ele está vendendo o chocolate? Será que está divulgando alguma marca? Mas não. O rapaz quer apenas lhe dar o doce. Quer que você fique feliz e que um sorriso ilumine seu rosto, enquanto, por alguns momentos, você se esquece das contas para pagar, do trabalho, dos problemas.

Esse desconhecido é o paulistano Gustavo Gitti, filósofo e pedagogo de 26 anos. Ele assina o blog Não2Não1, que aborda os relacionamentos amorosos sob ângulos inesperados, como o espiritual. Gustavo teve a ideia de distribuir os bombons no metrô e escreveu um belo texto sobre a iniciativa. Fizemos uma pequena entrevista com ele por e-mail. Confira e reflita: o que você pode fazer para provocar o sorriso de outra pessoa, na sua cidade?

Por que bombons? E por que no metrô?

Gustavo Gitti: Eu acho que chocolate abre as pessoas, especialmente as mulheres. Tem pessoas aqui no trabalho que nunca haviam sorrido para mim até o dia em que dei um Nha Benta da Kopenhagen. Distribuir barras é complicado, então pensei em bombons, pois têm embalagens únicas e vêm em uma caixa, que sempre peço para alguém abrir, na frente de todo mundo. Isso, creio eu, ajuda a não acharem que os bombons estão envenenados (já ouvi isso algumas vezes).

Todo dia ando de metrô, passo por todas as linhas para ir ao trabalho. É um ambiente que adoro pela constante movimentação de diversas pessoas de todos os lugares. O metrô é um lugar de passagem, onde todos estão distraídos, em seus próprios mundos. Ninguém espera nada acontecer, não há a abertura que vemos em pessoas que vão ao teatro, por exemplo. Estão todos apáticos, indo para algum lugar em vez de estarem presentes onde estão.

A reação das pessoas te surpreendeu?

GG: Já fiz quatro vezes. Em uma delas, entreguei um DVD também (Um Beijo Roubado). Algumas pessoas não pegam porque não entendem, outras porque acham que estão sendo enganadas ou que está contaminado, outras ignoram. A maioria das pessoas pega, sim, um pouco com receio, mas pega. Outras sorriem e as mais despertas perguntam, querem conversar, tudo com brilho no olho e curiosidade. Nunca explico a ação, apenas indico que busquem “bombons no metrô” no Google. O primeiro resultado leva para meu post sobre a ação.

Uma vez fiquei batendo papo com duas meninas da Noruega. Elas queriam entender a ação, aí brinquei: “Ué, não te falaram? Aqui no Brasil isso acontece direto. Somos assim!”. Na última vez, fiquei realmente surpreso com uma mulher que queria me pagar mesmo depois de eu explicar que era de graça. Ela até abriu a carteira! Sorte que o namorado logo pegou um e ela pediu desculpas por não ter entendido.

É possível pegar um vagão onde todos estão com cara de tédio e, minutos depois, deixá-lo vivo, com todo mundo se olhando, comendo chocolate, meio perplexo, meio inseguro, alguns sorrindo, outros silenciosamente felizes, sem admitir. A sensação de não saber o que está acontecendo, essa certa insegurança, falta de certeza (”por que ele está fazendo isso?”), isso nos abre para a vida, que não é senão incerteza e assombro constante. Ah, uma das pessoas para quem entreguei achou o blog e deixou um comentário. :-)

Você escreveu que quebrar automatismos, como esse ato dos bombons, é uma forma de exercitar a liberdade. Que outras coisas as pessoas podem fazer nesse sentido?

GG: Eu penso nisso quase diariamente: em como despertar as pessoas, seja pela internet ou por atos que invadem nosso cotidiano. Gosto muito do trabalho do grupo Improv Everywhere e da artista Miranda July (em seu projeto de conteúdo colaborativo Learning To Love You More). Então faço a minha parte quando tenho alguma ideia.

Além de distribuir bombons, já passei meu cartão na catraca do metrô para outra pessoa que estava na minha frente da fila, por exemplo. São pequenos atos, nada demais, mas que não são comuns, não é todo mundo que faz. Podemos nos ajudar assim, somos todos iguais, estamos no mesmo barco, vamos todos morrer em breve e temos essa necessidade por cuidado, carinho e amor. Atos generosos abrem portas, todo mundo sorri, é isso que todo mundo quer receber e fazer.

No último fim de semana, chamei minha namorada e meu irmão de 9 anos. Passamos no mercado, cada um pegou uma caixa de bombons e fomos pegar o metrô. Eles adoraram. As pessoas se sentem bem sendo generosas. É preciso cada vez mais abrir espaço e oferecer tecnologias e projetos para que elas possam praticar generosidade e sentir essa alegria que não vem de nenhum lugar e parece vir de todas as direções.

Em geral, o ponto não é distribuir bombons, mas ficar presente mesmo em ações corriqueiras. Não se distrair, não ficar dentro da própria cabeça. Andar no mundo com um olhar amplo, disponível, pronto para ajudar alguém, aberto às cores e sons da cidade, observando os outros com curiosidade. Cada estranho, uma vida infinita, dentro e fora. Como podemos ignorar isso?

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Publicado por Sorria*

Categoria Chaves da Cidade

4 comentários Comente também!

  1. Adorei ver minha foto postada no blog da revista. Valeu. Podem usar as minhas fotos sempre que precisarem sem custo. Gostaria de saber se isso é publicado na revista. Se for, gostaria de adquirir um exemplar.

  2. ANGELA disse:

    Oi, Gustavo eu sou a Angela irmã da tia Vani,adorei a sua idéia e quero te dizer que te acho e sempre te achei maravilhoso, pena que não nos vemos mais, adoro conversar com vc.
    Que Deus te abençoe, bjos

  3. [...] Sobre metrô, bombons e sorrisos: entrevista com Gustavo Gitti, que ditribuiu bombons no metrô e fez as pessoas sorrirem. [...]

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