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As Chaves da Cidade

11 de junho de 2009

por Jeanne Callegari

Lembra daquelas cenas nos filmes em que um ilustre visitante chega, ou uma pessoa faz alguma coisa heroica ou importante, e então recebe do prefeito a chave da cidade, em uma cerimônia alegre, com banda de música e discursos? Esse ato simbólico significava que aquela pessoa conquistara um pedacinho daquele lugar por ter feito algo bacana. Aquele local passava a ser dela, simbolicamente.

Quem entrega a chave da cidade, normalmente, é o prefeito. Mas ele não é o dono dela. Nem os vereadores ou políticos. Ou, pelo menos, não só eles. A cidade é de todos que moram e trabalham nela. Da professora da escola, da senhora que vende flores na feira, do segurança do estacionamento. A cidade é da louca do bairro, que todos conhecem pelo nome, do executivo que buzina apressado, do estudante que corre para pegar o ônibus. Da tia do cachorro-quente, do dono da livraria, do caixa do banco, das donas-de-casa. A cidade é minha. É sua, também. De todos nós.

Só que, de vez em quando, nem parece que ela é nossa. Não aproveitamos as ruas como poderíamos. Às vezes, por medo - não saímos à noite a pé, por exemplo, com receio dos assaltantes. De vez em quando, a gente até quer aproveitar o bairro, passear - mas as calçadas são tão irregulares que parece que estamos fazendo trilha na selva, de tanto esforço para percorrê-las. Tem também outras coisas que atrapalham, como as pessoas que fazem na rua o que não fariam em casa: deixar cair lixo ou parar o carro na calçada, sem pensar que vai atrapalhar o caminho dos outros. Alguns dos governantes não se importam com isso, e acham que o certo mesmo é ir da caixinha do trabalho para a caixinha da casa, sem parar para curtir a rua, o quarteirão, o bairro. Bem diferente da cidade do interior onde nasci, onde minha tia puxava a cadeira para a calçada para fazer a fresca, curtir a brisa da noite, antes da novela. Era OK sentar na rua, conversar com os vizinhos, afinal, a cidade era de todos. São Paulo seria outra cidade, se as pessoas se sentassem na calçada para fazer a fresca.

Mas nem tudo está perdido. Nos últimos anos, muita gente passou a questionar essa forma de lidar com a cidade, como se não tivéssemos nada a ver com ela. Afinal, ela é de todos ou de ninguém? Assim, surgiram milhares de iniciativas, ideias e programas, todos com a mesma ideia: retomar o espaço público. Reocupar o que é nosso. Limpar, jardinar, embelezar, pintar as ruas e muros, afinal, cada cantinho é de todo mundo. Para usar e cuidar.

Algumas são alternativas guerrilheiras, iniciativas de quem estava cansado de esperar o poder público fazer alguma coisa. Outras partiram de governos espertos e visionários, que sacaram a importância de os cidadãos se sentirem bem na cidade para o bem-estar geral. Muitas aconteceram em São Paulo, outras em outras partes do Brasil ou do mundo. Gente que fez acontecer e que, por isso, merece ganhar as chaves da cidade, como nos filmes antigos. E porque suas ações representam, também, chaves para o futuro, soluções que podem ser replicadas e imitadas para que todos vivamos em um mundo melhor.

Essa seção do blog é para falar dessas ideias legais. Porque todos, afinal, deveriam ter as chaves para sua rua, seu bairro, sua vizinhança.

oamorejeanne

O amor é importante, porra



“O amor é importante, porra.”

Essa é a frase. Está escrita em um muro da rua onde trabalho. Está escrita em várias paredes da cidade.

Não sei quem a escreveu. Mas sei do que se trata: alguma espécie de “artivismo”, a mistura de arte com ativismo, que toma as ruas de São Paulo (e de várias metrópoles do mundo). Os artivistas são gente que acredita que a cidade é de todos, e que suas paredes são a melhor tela para expressar olhares, receios, mensagens, pontos de vista.

Para algumas pessoas, esse tipo de ação é vandalismo. Para outras, é arte, poesia. É uma questão de perspectiva. Podemos odiar esses moleques arteiros que se acham os donos da rua, ou podemos prestar atenção no que eles têm a dizer. Podemos ver a beleza de seu trabalho, que está aí ao alcance de todos. Ou, pelo menos, de todos que saibam olhar.

A qualidade da arte de alguns, como dos grafiteiros osgemeos, por exemplo, já é reconhecida há bastante tempo, tanto que suas obras foram parar em galerias de arte. Outros trabalhos são mais difíceis de apreciar. Agridem os olhos, os sentidos. Servem para nos sacudir do marasmo.

“O amor é importante, porra.”

É o que me diz o pichador, sem nenhum desenho, apenas as letras, a frase. O palavrão no final deixa a mensagem mais forte, mais urgente, mais verdadeira. Afinal, quem poderia discordar?

E, para que não nos esqueçamos, está a frase no muro. Porque, porra, o amor é a coisa mais importante do mundo.

Foto: Laura Sobenes

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Publicado por Sorria*

Categoria Chaves da Cidade

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